Como educar o teu algoritmo
- Pedro Rodrigues

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Todos os dias acordamos e, quase sem dar por isso, entramos num mundo invisível feito de escolhas, cliques e preferências. Esse mundo tem um nome: algoritmo. Não é uma criatura mística nem um espião silencioso. É, na sua essência, um conjunto de instruções matemáticas que aprende com aquilo que fazemos online. Observa o que vemos, quanto tempo ficamos a olhar para um vídeo, o que comentamos e até aquilo que ignoramos. Depois, devolve-nos mais do mesmo.
Tal como na história de um jovem que aprende a voar ao lado de um dragão, também nós precisamos de aprender a guiar aquilo que parece indomável. O algoritmo não nasce bom nem mau. Torna-se aquilo que nós, colectivamente, lhe ensinamos a ser.
O que é, afinal, o algoritmo?
Imagina que a internet é uma enorme biblioteca sem bibliotecário humano. Para te ajudar a encontrar “os livros certos”, existe um sistema automático que organiza o que te é mostrado. Nas redes sociais, nas plataformas de vídeo ou nas pesquisas, o algoritmo decide prioridades com base no teu comportamento digital.
O problema surge quando deixamos de conduzir e passamos a ser conduzidos.
Se interagires frequentemente com conteúdos negativos, sensacionalistas ou agressivos, a probabilidade de seres exposto a mais desse tipo de informação aumenta. Progressivamente, o teu ambiente digital pode tornar-se mais polarizado, menos seguro e emocionalmente mais exigente.
Educar o algoritmo é, portanto, um acto de responsabilidade pessoal e colectiva.
Quando o algoritmo torna a internet menos segura
Uma utilização pouco consciente pode contribuir para:
• Maior exposição a desinformação
• Normalização de discursos de ódio
• Amplificação do cyberbullying
• Criação de bolhas onde só vemos uma parte da realidade
• Impacto negativo na saúde psicológica
Os jovens, em particular, podem ser mais vulneráveis a estes efeitos, pois o cérebro ainda está em desenvolvimento e a necessidade de pertença social é especialmente intensa nesta fase da vida. No entanto, os adultos não estão imunes. Pais e educadores são também aprendizes neste território digital em constante mutação.
Uma internet mais segura começa com pequenas decisões repetidas todos os dias.
Como treinar o teu algoritmo: estratégias práticas
1. Escolhe aquilo que alimentas
Segue páginas que promovam conhecimento, bem-estar e diversidade de perspectivas. O algoritmo aprende rapidamente com estas escolhas.
2. Não interajas com conteúdos tóxicos
Mesmo um comentário crítico ou um clique por curiosidade pode ser interpretado como interesse. Ignorar é, muitas vezes, uma forma eficaz de treinar o sistema.
3. Usa as ferramentas de controlo
Ocultar publicações, indicar que não tens interesse ou ajustar preferências são formas directas de educar o que te é mostrado.
4. Denuncia comportamentos abusivos
O cyberbullying não deve ser tolerado nem normalizado. Denunciar conteúdos ofensivos protege não só quem é alvo, mas toda a comunidade digital. O silêncio pode amplificar a violência; a acção ajuda a travá-la.
5. Diversifica o teu consumo digital
Procura fontes diferentes, lê opiniões variadas, evita permanecer sempre no mesmo tipo de conteúdo. Um algoritmo bem treinado é aquele que reflecte curiosidade, não apenas repetição.
6. Faz pausas conscientes
O tempo online influencia o tipo de sugestões que recebes. Estabelecer limites ajuda a manter uma relação mais saudável com a tecnologia.
O papel dos pais e educadores
Educar para a segurança digital não passa apenas por impor regras. Passa, sobretudo, por criar diálogo.
Perguntas simples podem abrir portas importantes:
“O que tens visto online?”
“Como te faz sentir?”
“Sabes o que fazer se encontrares algo perturbador?”
Mais do que vigiar, importa acompanhar. Mais do que proibir, importa capacitar.
Os adultos modelam comportamentos. Quando demonstram pensamento crítico, respeito e responsabilidade digital, estão a ensinar sem precisar de longas explicações.
Uma responsabilidade partilhada
Construir uma internet mais segura não depende apenas das plataformas tecnológicas ou das políticas de regulação. Depende de cada utilizador.
Cada clique é um voto invisível. Cada partilha é uma escolha com impacto colectivo
Tal como um dragão que aprende a confiar no seu cavaleiro, o algoritmo responde à forma como o guiamos. Com atenção, sentido crítico e empatia, é possível transformar o espaço digital num lugar mais seguro, mais humano e mais consciente.
Neste Dia da Internet Mais Segura, o convite é simples: não voes em piloto automático. Segura as rédeas do teu percurso digital.
Educa o teu algoritmo. E ajuda a criar uma internet onde todos possam voar com maior tranquilidade.
Pedro Rodrigues, Psicólogo clínico





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